De onde vem os nomes das peças?
- vijuart
- 25 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 30 de nov. de 2023
Advindos de mulheres negras brasileiras, os nomes das peças VIJU rememoram histórias de luta e resistência, dispostas nas mais diversas áreas: política, cultura, saúde, ciência e esporte.
Que tal saber um pouca mais da história de algumas delas?
Vamos começar contando um pouquinho da história da primeira atriz preta brasileira, Ruth de Souza, nascida no Rio de Janeiro em 1921, apaixonada por cinema e teatro, em 1945 ingressou no Teatro Experimental do Negro (grupo de atores liderados por Abdias do Nascimento, que tinha o objetivo de abrir espaço para atores negros, já que eram inexistentes). Como parte da companhia, estreou ainda em 1945 sua primeira peça: O Imperador Jones, de Eugene O'Neil, ainda com a companhia interpretou mais algumas peças mas foi em 1947 que estreou nas grandes telas, com indicação de Jorge Amado, fez parte do elenco do filme Terra violenta, onde também atuavam Anselmo Duarte e Grande Otelo.
Em 1950 recebeu bolsa para estudar nos Estados Unidos, ao voltar pro Brasil seguiu sua carreira no cinema e viveu grandes momentos no teatro, inclusive, interpretou Carolina Maria de Jesus na peça Quarto de despejo.
Foi a primeira atriz brasileira indicada para um prêmio internacional, o Leão de Ouro. Passou a trabalhar na televisão, em novelas nas TVs Tupi, Record e, mais tarde, na Rede Globo.
Ruth faleceu em 28 de julho de 2019, aos 98 anos.
Conhecer a história de Tia Ciata é também entender a construção cultural do Rio de Janeiro. Estrategista, visionária, quituteira, cozinheira, mãe de santo, "tia", d'Oxum, uma mulher com muitas qualidades e sabedoria, soube com maestria, junto a outras "tias" importantes construir um quilombo urbano - no quintal de sua casa, considerado um dos berços do samba. Numa época em que o samba e os cultos de religiões de matrizes africanas eram perseguidos pela polícia, Tia Ciata conseguiu manter seu quilombo como um ponto de encontro, de festejo, onde não poderia faltar comida, preparada pelas mãos dela. Tinha vez também como curandeira, conhecedora das ervas medicinais, dos conhecimentos afro-brasileiros e da sabedoria ancestral de emplastos, em certa ocasião recebeu o chamado para curar uma ferida na perna de Wenceslau Brás (ferida esta que na época médico algum conseguira fechar), respondeu ao pedido do presidente com: "quem precisa de caridade que venha cá (...) Não conheço ele, eu vejo falar em Wenceslau Brás, mas não conheço, não" conta seu neto, o sambista Bucy Moreira.
Com resistência para atender o chamado, até consulta fez para saber se devia curá-lo, por fim estabeleceu ervas e deu instruções para cuidar do ferimento, dentro do prazo estabelecido, estava curado. O feito rendeu um cargo como chefe do gabinete da polícia para seu marido, João Batista da Silva. Lembra das perseguições pela polícia aos cultos e sambas? Pois agora João Batista era chefe da polícia.
Clementina de Jesus nasceu em Valença, em 1901. Aprendeu a cantar com a mãe, que soltava a voz enquanto lavava as roupas na beira do rio. Herdeira de uma forte cultura negra estabelecida no Brasil, seus pais eram filhos de negros escravizados, nascidos sob a Lei do Ventre Livre. Aprendeu com sua mãe os pontos, jongos e outras peças. Tinha 8 anos quando se mudou para Zona Norte do Rio de Janeiro, onde acompanhou o nascimento da Portela, uma das mais tradicionais escolas de samba cariocas, quando se casou com Albino Pé Grande, em 1940, se mudou para Mangueira, escola da qual seu marido fazia parte e ela passou a integrar. Trabalhou por 20 anos como empregada doméstica mas a música nunca deixou de fazer parte de sua vida, foi aos 62 anos que esbarrou com o .produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, começava ali uma trajetória que a levaria a shows por todo o Brasil e mundo afora.
Rainha Quelé gravou cinco discos solo e mais 8 divididos com nomes como Nelson Cavaquinho, Cartola e Pixinguinha, o sucesso nunca deslumbrou Quelé que continuou morando no mesm lugar, morreu aos 86 anos em 1987. Rainha Quelé nasceu para cantar.
Dona Ivone Lara foi uma das pioneiras do samba, compositora e interprete, a primeira mulher a compor um samba-enredo e primeira a integrar a Ala dos Compositores da Império Serrano. Enfrentou muito machismo na época mas alcançou seu espaço na comissão, levando em seu primeiro samba a vitória para a escola. Ivone também fez um curso de assistente social e trabalhou diretamente com a doutora Nise da Silveira, no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, na época estava sobrecarregada, seguia compondo (compôs mais de 400 canções) mas seguia com o trabalho no Hospital pois achava extremamente necessário.
Sua trajetória artística é belíssima e longa, foi só quando gravou seu primeiro disco, em 1978, que passou a se dedicar inteiramente à música.
Faleceu em 2018 mas vive no samba, em suas composições e na resistência da mulher preta brasileira.
Não dá pra falar de Elza sem falar de luta e coragem, fato que comprova em sua primeira apresentação, ainda menina, foi escondida do marido para se apresentar no programa de rádio de Ary Barroso. Uma mãe de 13 anos, com um vestido preso por alfinetes e o cabelo arrumado da melhor forma que podia... "de que planeta você veio?" prontamente, Elza respondeu "Do mesmo planeta que você, seu Ary, do Planeta Fome", ao terminar de cantar, foi muitíssimo elogiada, todos ficaram impressionados com a potência de sua voz. A profecia de Ary se cumpria, ali nascia uma estrela.
Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, em 1946, mulher, negra, periférica, mãe, militante, escritora e literata. Conciliava os estudos com o trabalho como empregada doméstica. Teve a oportunidade de realizar o sonho de se tornar professora apenas quando se mudou para o Rio de Janeiro.
Nossos passos vêm de longe e não podemos esquecer daquelas que nos antecederam.

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